Arquivo de Sentimentos - Carla Louro https://carlalouro.com/tag/sentimentos/ My WordPress Blog Thu, 21 Aug 2025 14:30:52 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://carlalouro.com/wp-content/uploads/2025/09/Andre-Cruz-Estudio-Fotografico-15-98141-6016-@acruzestudiofotografico-7-150x150.jpg Arquivo de Sentimentos - Carla Louro https://carlalouro.com/tag/sentimentos/ 32 32 Amar e odiar: as marés ocultas do mesmo sentimento https://carlalouro.com/amar-e-odiar-as-mares-ocultas-do-mesmo-sentimento/ https://carlalouro.com/amar-e-odiar-as-mares-ocultas-do-mesmo-sentimento/#respond Wed, 25 Apr 2018 20:48:00 +0000 https://carlalouro.com/psicoterapia-on-line-como-pode-ajudar-voce-hoje/ Há sentimentos que não se encaixam em definições fáceis. Há afetos que se embaralham dentro da gente, dançando em círculos sob a pele, como se fossem opostos; mas não são. O amor e o ódio, por exemplo, não são inimigos. São vizinhos. Dormem na mesma casa psíquica, dividem a mesma mesa de afetos, e muitas […]

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Há sentimentos que não se encaixam em definições fáceis. Há afetos que se embaralham dentro da gente, dançando em círculos sob a pele, como se fossem opostos; mas não são. O amor e o ódio, por exemplo, não são inimigos. São vizinhos. Dormem na mesma casa psíquica, dividem a mesma mesa de afetos, e muitas vezes se confundem no mesmo olhar.

Na superfície, queremos acreditar que o amor deveria ser puro, limpo, livre de raiva, de frustração, de ressentimento. Mas a verdade é mais profunda; e mais humana.

A psicanálise, em sua escuta das camadas menos visíveis da alma, nos ensina que amar e odiar a mesma pessoa é parte da experiência emocional de ser humano. Essa convivência dos contrários, chamada ambivalência, é central para a vida psíquica. Amamos e odiamos nossos pais, nossos filhos, nossos parceiros, nossos amigos; às vezes, no intervalo de um mesmo gesto.

O afeto dividido: ambivalência como sinal de complexidade

Freud já apontava que o amor e o ódio não se anulam; eles se entrelaçam, formando os nós mais profundos da subjetividade. Melanie Klein, por sua vez, trouxe à luz o quanto o amadurecimento emocional passa pela capacidade de reconhecer que a mesma figura que amamos intensamente também pode nos frustrar, ferir, limitar.

A criança, em seu primeiro grande amor (a mãe), também experimenta sua primeira grande raiva. A fome não saciada, o colo que demora, o olhar que se desvia. E é nesse campo de frustração que nasce a ambivalência. O bebê deseja e odeia, ama e repele, tudo ao mesmo tempo. Esse é o solo psíquico onde se funda a vida afetiva.

Na vida adulta, esses movimentos continuam. Mas agora, temos a chance de olhar para eles com mais consciência. A maturidade emocional não está em banir o ódio, mas em reconhecê-lo, sustentá-lo, sem que ele destrua o vínculo.

Amar sem idealizar, odiar sem destruir

Sustentar a ambivalência é sustentar o vínculo na realidade. Amar alguém que falha. Continuar em relação com quem frustra. Ficar mesmo quando há raiva; não para anular o sentimento, mas para poder elaborá-lo.

Esse é um dos maiores desafios dos relacionamentos: abandonar o ideal de completude e aceitar que o outro não é só objeto de amor, mas também de ódio, raiva, impaciência. O outro não vem para nos preencher, mas para nos atravessar.

Na clínica, ouço muitas pessoas assustadas com o próprio ódio. Sentem raiva do filho que amam, da mãe que cuidou, do parceiro que escolheram. E se culpam. Mas o que precisa ser escutado aí não é a falha do amor, mas a complexidade do afeto.

Onde há ambivalência, há verdade

Não existe amor real sem frustração. Não existe vínculo profundo sem embate. Amar com consciência é permitir que o ódio também tenha lugar; não para se expressar de forma destrutiva, mas para ser simbolizado, elaborado, compreendido.

A psicanálise não promete afetos leves, mas uma travessia mais lúcida por entre as marés emocionais. Convida a escutar, dentro de si, essas vozes que se contradizem; e a não fugir diante delas.

Talvez seja esse o verdadeiro gesto de maturidade: abraçar o paradoxo que somos, amar sem negar o que também nos atravessa.

Se você se interessa por reflexões como essa, siga navegando por aqui. Há muito mais a ser dito sobre os afetos que nos movem; e também os que nos ferem. Tudo isso faz parte da nossa condição de existir.

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