Arquivo de Psicanálise - Carla Louro https://carlalouro.com/tag/psicanalise/ My WordPress Blog Thu, 21 Aug 2025 17:47:14 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://carlalouro.com/wp-content/uploads/2025/09/Andre-Cruz-Estudio-Fotografico-15-98141-6016-@acruzestudiofotografico-7-150x150.jpg Arquivo de Psicanálise - Carla Louro https://carlalouro.com/tag/psicanalise/ 32 32 Transformações do corpo e da mente na maturidade: perdas ou redescobertas? https://carlalouro.com/envelhecer-um-caminho-de-autodescoberta-e-crescimento/ https://carlalouro.com/envelhecer-um-caminho-de-autodescoberta-e-crescimento/#respond Mon, 23 Jun 2025 20:47:00 +0000 https://carlalouro.com/envelhecer-um-caminho-de-autodescoberta-e-crescimento/ Há um momento da vida em que o espelho já não reflete apenas a imagem: ele devolve perguntas. O corpo, antes automático, agora hesita. A mente, antes veloz, agora pondera. E, entre rugas e silêncios, surgem inquietações: O que ainda sou? O que deixei de ser? O que posso me tornar? A maturidade chega sem […]

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Há um momento da vida em que o espelho já não reflete apenas a imagem: ele devolve perguntas. O corpo, antes automático, agora hesita. A mente, antes veloz, agora pondera. E, entre rugas e silêncios, surgem inquietações: O que ainda sou? O que deixei de ser? O que posso me tornar?

A maturidade chega sem pedir licença. Não é súbita, mas se instala aos poucos, como o entardecer que escurece o dia sem que percebamos o instante exato da mudança. E com ela, chegam transformações inevitáveis; algumas visíveis, outras silenciosas, quase imperceptíveis aos olhos do mundo, mas gritantes no íntimo de quem as vive.

A experiência do envelhecer não se resume à contagem dos anos. É atravessada por lutos sutis: a vitalidade que já não é a mesma, a pele que afrouxa, a memória que escapa. Mas talvez o maior luto seja o da identidade que envelhece com o corpo; aquela que já não se reconhece nos papéis antigos: a filha que virou mãe, a mãe que agora se vê sozinha, a profissional que já não se encaixa nas exigências de um mundo acelerado.

Na escuta clínica, vejo com frequência esse embate entre o que se perde e o que pode ainda ser encontrado. A mulher que se pergunta se ainda é desejável. O homem que sente o vazio após uma vida de trabalho. A mente que tenta se reorganizar diante de um corpo que muda. Cada transformação carrega uma dor, mas também a possibilidade de um novo nascimento psíquico.

Freud nos ensinou que o eu é construído em camadas, e que a maturidade é uma fase propícia para o reexame dessas camadas. Se na juventude somos convocados a nos lançar ao mundo, na maturidade somos convidados a mergulhar em nós. Não é mais o tempo da expansão, mas da escuta. Não é mais o tempo da performance, mas da verdade.

O corpo que perde vigor também pode ganhar liberdade. Liberdade de não agradar. De dizer não. De escolher o silêncio. De romper com o que sempre foi e já não faz mais sentido.

A mente, por sua vez, pode se tornar mais sábia. Menos reativa, mais contemplativa. Capaz de elaborar o que antes era apenas repetido. Em vez de perda, talvez estejamos diante de uma travessia; onde aquilo que parecia ruir era, na verdade, o que precisava se desfazer para que outra coisa pudesse emergir.

O desafio é não fixar o olhar apenas naquilo que se vai, mas também naquilo que pode vir. Porque há redescobertas possíveis quando se tem coragem de olhar para dentro. Talvez o amor, agora mais sereno. A amizade, mais íntima. O tempo, menos escasso. O desejo, menos ansioso.

A maturidade nos tira algumas ilusões, mas pode nos devolver a inteireza. E a grande pergunta talvez não seja “o que estou perdendo?”, mas “o que posso reencontrar em mim?”

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A solidão na velhice: entre o silêncio e o desejo de ser lembrado https://carlalouro.com/a-solidao-na-velhice-entre-o-silencio-e-o-desejo-de-ser-lembrado/ https://carlalouro.com/a-solidao-na-velhice-entre-o-silencio-e-o-desejo-de-ser-lembrado/#respond Fri, 06 Sep 2024 19:53:00 +0000 https://carlalouro.com/?p=233 Há silêncios que não se fazem de palavras, mas de ausência. Silêncios que ocupam a sala, a cadeira vazia à mesa, o telefone que não toca. Na velhice, esses silêncios ganham corpo. Tornam-se companhia. E não raro, tornam-se ferida. A velhice, embora frequentemente romantizada como tempo de sabedoria e contemplação, é muitas vezes marcada por […]

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Há silêncios que não se fazem de palavras, mas de ausência. Silêncios que ocupam a sala, a cadeira vazia à mesa, o telefone que não toca. Na velhice, esses silêncios ganham corpo. Tornam-se companhia. E não raro, tornam-se ferida.

A velhice, embora frequentemente romantizada como tempo de sabedoria e contemplação, é muitas vezes marcada por um tipo de solidão que vai além da falta de pessoas: é a ausência de ser lembrado. De ter a própria existência ecoando em outro alguém.

Quem sou, se já não há quem me chame? De que vale a história que carrego, se ninguém mais a escuta?

Envelhecer é, em parte, se despedir. Dos papéis que nos sustentaram por décadas; o de mãe, de pai, de trabalhador, de parceiro. Do corpo que já não responde com a mesma agilidade. Dos vínculos que se perderam no tempo. E, mais profundamente, de uma certa centralidade no mundo do outro.

A escuta clínica revela esse abismo: o idoso que foi presença marcante na vida dos filhos, agora é visto como peso ou tarefa. A mulher que foi pilar da família, agora sente que sua voz se dissolve no ruído da rotina alheia. O homem que teve uma vida pública ativa, agora passa os dias olhando pela janela.

Freud, em Luto e Melancolia, nos ajuda a entender esse luto peculiar da velhice: não por alguém que morreu, mas por um lugar que já não é mais ocupado. A libido, que antes se dirigia ao mundo, retorna agora ao eu. E quando esse eu está fragilizado, o risco de mergulho na melancolia é alto.

Mas é também nesse tempo que algo pode se rearranjar. Winnicott nos lembra que a solidão, quando sustentada, pode ser criativa. Que existe uma diferença entre estar só e sentir-se abandonado. Na velhice, o desafio é esse: transformar o silêncio em escuta interior. Fazer da memória um espaço fértil, não apenas nostálgico. E reencontrar, quem sabe, o desejo (ainda que discreto) de continuar sendo.

O desejo de ser lembrado não é apenas vaidade. É pulsão de vida. É o grito psíquico de quem quer continuar existindo, não apenas biologicamente, mas simbolicamente. Porque o humano só é quando é reconhecido. Só vive, de fato, quando se sente visto, nomeado, pertencente a alguém ou a alguma história.

Por isso, envelhecer não deveria ser sinônimo de desaparecer. A escuta, o cuidado e a presença de outro são mais do que acolhimento: são formas de sustentar a existência de quem, aos poucos, vai sendo apagado pelo tempo social.

E se é verdade que não podemos deter o tempo, talvez possamos fazer diferente diante dele: sermos presença para quem já foi presença para tantos. Abrirmos espaço para as histórias que ainda vivem, mesmo que num corpo mais lento. E, acima de tudo, sustentarmos o laço; esse fio invisível que, mesmo frágil, ainda é capaz de devolver sentido.

Porque há solidões que matam, mas há presenças que salvam. E talvez a maior dignidade da velhice seja essa: não ser esquecido enquanto ainda se está vivo.

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A reconfiguração da imagem corporal e a ferida narcísica https://carlalouro.com/a-reconfiguracao-da-imagem-corporal-e-a-ferida-narcisica/ https://carlalouro.com/a-reconfiguracao-da-imagem-corporal-e-a-ferida-narcisica/#respond Sun, 16 Jun 2024 01:36:00 +0000 https://carlalouro.com/?p=368 Ao chegar à meia-idade, o espelho parece ganhar uma voz própria. Ele já não devolve apenas a imagem conhecida, mas também insinua o passar do tempo, revelando marcas que antes passavam despercebidas. É nesse encontro íntimo entre o corpo real e o corpo idealizado que muitas mulheres sentem o peso de uma ferida silenciosa, a […]

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Ao chegar à meia-idade, o espelho parece ganhar uma voz própria. Ele já não devolve apenas a imagem conhecida, mas também insinua o passar do tempo, revelando marcas que antes passavam despercebidas. É nesse encontro íntimo entre o corpo real e o corpo idealizado que muitas mulheres sentem o peso de uma ferida silenciosa, a ferida narcísica. Na linguagem da psicanálise, ela surge quando a imagem que temos de nós mesmas se rompe, exigindo uma nova costura entre o que fomos, o que somos e o que ainda podemos ser.

A meia-idade é, para muitas mulheres, um território de espelhos inquietos. Não apenas o que está na parede do quarto, mas também os que se escondem nos olhares alheios, nas fotografias antigas e nas comparações inevitáveis com quem já fomos. É um tempo em que o corpo, antes aliado discreto, passa a chamar atenção para si, reclamando reconhecimento e cuidado. A psicanálise chama de ferida narcísica esse choque entre a imagem idealizada e a realidade presente. Freud descreveu o narcisismo como o amor que dirigimos a nós mesmas e Lacan apontou que a forma como nos vemos, a imagem especular, é um dos pilares de nossa identidade. Quando essa imagem se altera, o eu inteiro parece estremecer.

A ferida que o espelho revela

O envelhecimento físico não é apenas uma questão biológica, mas também um acontecimento simbólico. As rugas, os fios brancos, a pele mais frouxa, tudo isso não fala apenas de tempo, mas de histórias. Ainda assim, vivemos numa cultura que exalta o brilho da juventude como se fosse o único tempo válido. Por isso, a mulher madura muitas vezes se percebe em um duelo silencioso com a própria aparência, sentindo como se a beleza fosse um passaporte que lhe foi retirado.

Essa perda é um luto sem velório. Não choramos abertamente por ele, mas carregamos seu peso. É o luto pela imagem de antes, pelo corpo fértil, pelo olhar que recebíamos e que talvez já não venha com a mesma frequência.

O olhar do outro e o olhar de si

Desde cedo aprendemos a nos ver pelos olhos alheios. O elogio ou a crítica moldam, pouco a pouco, a forma como nos enxergamos. Na meia-idade, quando o olhar social tende a deslizar para outras figuras mais jovens e mais atuais, muitas mulheres experimentam um sentimento de invisibilidade.

É nesse momento que surge uma encruzilhada interna. Continuar buscando incessantemente o olhar do outro para confirmar nossa existência ou começar a desenvolver um olhar próprio, íntimo, que reconheça beleza para além do que é fotografável.

Sexualidade: invisibilidade ou redescoberta?

Para algumas mulheres, o avanço da idade marca um retraimento sexual, alimentado pela crença de que o desejo está ligado apenas à juventude. Para outras, paradoxalmente, é o momento de maior liberdade erótica, pois já não se busca corresponder a um padrão externo. Na psicanálise, poderíamos dizer que é a fase em que o desejo deixa de ser uma vitrine e passa a ser um quarto fechado. Mais secreto, mas também mais verdadeiro.

O espelho como portal

O corpo na meia-idade não é um inimigo a ser vencido, mas um diário vivo onde cada marca carrega uma narrativa. A ferida narcísica, quando encarada, pode se tornar um portal para um novo amor-próprio. Esse amor é mais profundo e menos dependente de aplausos externos. O espelho, afinal, não precisa ser um juiz. Ele pode se tornar uma janela para a inteireza, se aprendermos a nos olhar com o mesmo cuidado com que se observa uma obra de arte antiga, percebendo não só a beleza, mas o valor do tempo inscrito nela.


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Quando a mente sussurra e ninguém escuta: um convite ao cuidado que não se vê no espelho https://carlalouro.com/quando-a-mente-sussurra-e-ninguem-escuta-um-convite-ao-cuidado-que-nao-se-ve-no-espelho/ https://carlalouro.com/quando-a-mente-sussurra-e-ninguem-escuta-um-convite-ao-cuidado-que-nao-se-ve-no-espelho/#respond Sat, 12 Jan 2019 20:48:00 +0000 https://carlalouro.com/a-importancia-da-reflexao-no-processo-de-envelhecimento/ Vivemos em tempos em que falar sobre saúde mental se tornou mais comum; e isso é importante. Mas, muitas vezes, esse discurso vem embalado por fórmulas prontas, listas de autocuidado e promessas de bem-estar imediato. Neste texto, o convite é outro: mergulhar em uma escuta mais profunda, onde o cuidado com a mente não é […]

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Vivemos em tempos em que falar sobre saúde mental se tornou mais comum; e isso é importante. Mas, muitas vezes, esse discurso vem embalado por fórmulas prontas, listas de autocuidado e promessas de bem-estar imediato. Neste texto, o convite é outro: mergulhar em uma escuta mais profunda, onde o cuidado com a mente não é apenas um conjunto de práticas, mas um processo de elaboração subjetiva. À luz da psicanálise, vamos pensar juntos sobre o que é, de fato, cuidar da saúde mental; e por que esse cuidado vai muito além do que cabe em um post de dicas rápidas.

Cuidar da saúde mental é muito mais do que seguir uma rotina saudável ou tentar manter o “pensamento positivo”. É, antes de tudo, aprender a ouvir o que a alma sussurra nos bastidores do cotidiano; porque a dor psíquica nem sempre grita. Às vezes, ela apenas silencia. Recolhe-se nos cantos do corpo, esconde-se atrás de sorrisos automáticos ou se manifesta em insônias que não pedem licença.

Vivemos em uma cultura que valoriza o que aparece: produtividade, desempenho, controle emocional. Mas quem disse que a mente se organiza segundo o calendário? Que o sofrimento se dissolve com boas intenções?

A psicanálise nos lembra que há um saber inconsciente em tudo aquilo que se repete, no que nos escapa, nos sintomas que não conseguimos explicar. Cuidar da saúde mental, portanto, não é seguir um manual. É construir, aos poucos, um espaço interno onde seja possível habitar a si mesmo com menos estranhamento.

Olhar para si exige coragem. A coragem de parar. De se perguntar: O que em mim tem sido ignorado? O que venho silenciando em nome da pressa, da performance, da sobrevivência?

Cuidar-se é um processo. Um percurso que passa, muitas vezes, por reconhecer que nem tudo será resolvido; mas que tudo pode, sim, ser escutado. E é na escuta que algo pode, enfim, florescer. Não como solução mágica, mas como gesto ético de acolhimento do que é profundamente humano: nossos medos, nossas falhas, nossos desejos e também nossa história.

A saúde mental não é um ponto de chegada. É o caminho possível para que a vida, com suas nuances, dores e beleza, faça algum sentido.

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Amar e odiar: as marés ocultas do mesmo sentimento https://carlalouro.com/amar-e-odiar-as-mares-ocultas-do-mesmo-sentimento/ https://carlalouro.com/amar-e-odiar-as-mares-ocultas-do-mesmo-sentimento/#respond Wed, 25 Apr 2018 20:48:00 +0000 https://carlalouro.com/psicoterapia-on-line-como-pode-ajudar-voce-hoje/ Há sentimentos que não se encaixam em definições fáceis. Há afetos que se embaralham dentro da gente, dançando em círculos sob a pele, como se fossem opostos; mas não são. O amor e o ódio, por exemplo, não são inimigos. São vizinhos. Dormem na mesma casa psíquica, dividem a mesma mesa de afetos, e muitas […]

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Há sentimentos que não se encaixam em definições fáceis. Há afetos que se embaralham dentro da gente, dançando em círculos sob a pele, como se fossem opostos; mas não são. O amor e o ódio, por exemplo, não são inimigos. São vizinhos. Dormem na mesma casa psíquica, dividem a mesma mesa de afetos, e muitas vezes se confundem no mesmo olhar.

Na superfície, queremos acreditar que o amor deveria ser puro, limpo, livre de raiva, de frustração, de ressentimento. Mas a verdade é mais profunda; e mais humana.

A psicanálise, em sua escuta das camadas menos visíveis da alma, nos ensina que amar e odiar a mesma pessoa é parte da experiência emocional de ser humano. Essa convivência dos contrários, chamada ambivalência, é central para a vida psíquica. Amamos e odiamos nossos pais, nossos filhos, nossos parceiros, nossos amigos; às vezes, no intervalo de um mesmo gesto.

O afeto dividido: ambivalência como sinal de complexidade

Freud já apontava que o amor e o ódio não se anulam; eles se entrelaçam, formando os nós mais profundos da subjetividade. Melanie Klein, por sua vez, trouxe à luz o quanto o amadurecimento emocional passa pela capacidade de reconhecer que a mesma figura que amamos intensamente também pode nos frustrar, ferir, limitar.

A criança, em seu primeiro grande amor (a mãe), também experimenta sua primeira grande raiva. A fome não saciada, o colo que demora, o olhar que se desvia. E é nesse campo de frustração que nasce a ambivalência. O bebê deseja e odeia, ama e repele, tudo ao mesmo tempo. Esse é o solo psíquico onde se funda a vida afetiva.

Na vida adulta, esses movimentos continuam. Mas agora, temos a chance de olhar para eles com mais consciência. A maturidade emocional não está em banir o ódio, mas em reconhecê-lo, sustentá-lo, sem que ele destrua o vínculo.

Amar sem idealizar, odiar sem destruir

Sustentar a ambivalência é sustentar o vínculo na realidade. Amar alguém que falha. Continuar em relação com quem frustra. Ficar mesmo quando há raiva; não para anular o sentimento, mas para poder elaborá-lo.

Esse é um dos maiores desafios dos relacionamentos: abandonar o ideal de completude e aceitar que o outro não é só objeto de amor, mas também de ódio, raiva, impaciência. O outro não vem para nos preencher, mas para nos atravessar.

Na clínica, ouço muitas pessoas assustadas com o próprio ódio. Sentem raiva do filho que amam, da mãe que cuidou, do parceiro que escolheram. E se culpam. Mas o que precisa ser escutado aí não é a falha do amor, mas a complexidade do afeto.

Onde há ambivalência, há verdade

Não existe amor real sem frustração. Não existe vínculo profundo sem embate. Amar com consciência é permitir que o ódio também tenha lugar; não para se expressar de forma destrutiva, mas para ser simbolizado, elaborado, compreendido.

A psicanálise não promete afetos leves, mas uma travessia mais lúcida por entre as marés emocionais. Convida a escutar, dentro de si, essas vozes que se contradizem; e a não fugir diante delas.

Talvez seja esse o verdadeiro gesto de maturidade: abraçar o paradoxo que somos, amar sem negar o que também nos atravessa.

Se você se interessa por reflexões como essa, siga navegando por aqui. Há muito mais a ser dito sobre os afetos que nos movem; e também os que nos ferem. Tudo isso faz parte da nossa condição de existir.

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A difícil arte de conviver: consigo e com o outro https://carlalouro.com/a-dificil-arte-de-conviver-consigo-e-co-mo-outro/ https://carlalouro.com/a-dificil-arte-de-conviver-consigo-e-co-mo-outro/#respond Tue, 16 Aug 2016 20:48:00 +0000 https://carlalouro.com/historias-inspiradoras-de-mulheres-que-superaram-desafios/ Em algum momento da vida, todos nós nos deparamos com dificuldades nos relacionamentos; seja em casa, no trabalho ou nos laços mais íntimos. É comum atribuir esses impasses ao comportamento do outro. Mas e se parte desses conflitos tiverem raízes dentro de nós? Neste texto, convido você a refletir sobre a relação entre o que […]

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Em algum momento da vida, todos nós nos deparamos com dificuldades nos relacionamentos; seja em casa, no trabalho ou nos laços mais íntimos. É comum atribuir esses impasses ao comportamento do outro. Mas e se parte desses conflitos tiverem raízes dentro de nós?

Neste texto, convido você a refletir sobre a relação entre o que vivemos externamente e o que carregamos internamente. A partir da lente da psicanálise, exploramos como nossas sombras, defesas e silêncios influenciam nossa capacidade de conviver; não apenas com os outros, mas principalmente conosco.

Conviver bem com os outros implica, antes de tudo, em saber conviver consigo mesmo. Grande parte dos conflitos atribuídos a causas externas são, na verdade, expressões de conflitos internos.

Muitas pessoas resistem em admitir a existência de um conflito interno, pois tendem a enxergá-lo como algo negativo. Assim, torna-se mais fácil responsabilizar o outro pelo mal-estar em que se encontram.

Quando a culpa é sempre do outro, o sujeito deixa de olhar para si. Não aprende nada a seu respeito, vive uma vida ignorante acerca de si mesmo; sem movimento interno, sem transformação. Essa postura pode ser compreendida como uma defesa contra o contato com os próprios conflitos, com aquilo que há de mais difícil dentro de si: o que Jung chamou de “sombra”.

“Infelizmente, não há dúvida de que o homem não é, em geral, tão bom quanto imagina ou gostaria de ser. Todo mundo tem uma sombra, e quanto mais escondida ela está da vida consciente do indivíduo, mais escura e densa ela se tornará. De qualquer forma, é um dos nossos piores obstáculos, já que frustra as nossas ações bem intencionadas.”

Carl Jung

A escuta psicanalítica: somos divididos

A psicanálise nos ensina que o sujeito não é uno, mas dividido. Somos habitados por desejos inconscientes que nem sempre coincidem com a imagem que fazemos de nós mesmos.

Há em cada um de nós um estranho familiar (aquilo que Freud chamou de Unheimlich, ou “inquietante”) que insistimos em calar, mas que se faz ouvir nos lapsos, nos sintomas, nos sonhos e nas repetições.

É justamente no encontro com o outro que essas fissuras psíquicas tendem a se evidenciar. O outro nos provoca, nos desconcerta, nos afeta; e, por vezes, faz emergir aspectos de nós que preferíamos manter adormecidos.

Assim, aquilo que nos incomoda no outro frequentemente fala mais sobre o que em nós está em conflito do que sobre o comportamento alheio.

A coragem de sustentar-se

Conviver consigo, portanto, não é uma tarefa pacífica. Exige coragem para suportar o que se descobre, disposição para revisitar a própria história e escuta para os silêncios que nos habitam.

Conviver é, antes de mais nada, um movimento de responsabilidade subjetiva: reconhecer que há algo em nós que participa das dores que vivemos; sem culpa, mas com implicação.

E talvez, ao aprender a suportar a própria companhia (com suas luzes e sombras) o sujeito se torne mais capaz de sustentar a alteridade, não como ameaça, mas como oportunidade de encontro.

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Heranças invisíveis: o porão psíquico da família https://carlalouro.com/herancas-invisiveis-o-porao-psiquico-da-familia/ https://carlalouro.com/herancas-invisiveis-o-porao-psiquico-da-familia/#respond Tue, 10 May 2016 18:22:00 +0000 https://carlalouro.com/?p=314 Um ensaio de psicanálise sobre o que carregamos sem saber Toda casa tem um porão. Mesmo que não exista fisicamente, ele existe em nós; como símbolo, como metáfora. Um lugar escuro e silencioso onde se acumulam histórias, objetos esquecidos, segredos antigos, dores não ditas. Nas famílias, o porão psíquico é o espaço onde repousam os […]

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Um ensaio de psicanálise sobre o que carregamos sem saber

Toda casa tem um porão.

Mesmo que não exista fisicamente, ele existe em nós; como símbolo, como metáfora. Um lugar escuro e silencioso onde se acumulam histórias, objetos esquecidos, segredos antigos, dores não ditas.

Nas famílias, o porão psíquico é o espaço onde repousam os afetos não expressos, os traumas silenciados, as repetições que seguem acontecendo sem que saibamos ao certo por quê.

É lá que moram os pactos inconscientes, os segredos herdados, as frases não ditas, mas repetidas em atos.

É nesse porão que se escondem as heranças invisíveis; aquelas que não são deixadas em testamentos, mas inscritas no corpo, na alma, no modo de amar, sofrer e se relacionar com o mundo.

A transmissão psíquica: o que passa de geração em geração

Muito do que herdamos não vem em forma de ensinamento direto, mas através do que não foi elaborado pelos que vieram antes de nós.

Freud já alertava que aquilo que não é lembrado se repete; e muitas vezes, essa repetição se manifesta como sintoma: ansiedade crônica, vínculos destrutivos, autossabotagem, culpa excessiva, medos inexplicáveis.

René Kaës, psicanalista francês que dedicou sua obra ao estudo da transmissão psíquica intergeracional, fala da existência de contratos narcísicos familiares: acordos inconscientes feitos dentro do grupo familiar, nos quais certos desejos devem ser silenciados, certos temas devem ser evitados, e determinados papéis devem ser cumpridos; mesmo que às custas do próprio sofrimento.

Essas heranças emocionais não são necessariamente traumáticas. Mas quando não são nomeadas ou simbolizadas, passam a agir no subterrâneo da vida, como forças que nos dirigem sem que percebamos.

Os fantasmas da família: o que não se disse, mas se repete

Os psicanalistas Abraham e Torok desenvolveram a noção de fantasmas psíquicos: conteúdos não elaborados por um membro da família que se instalam no inconsciente de outro, geralmente pertencente a uma geração seguinte.

Não se trata de “culpa” ou intenção, mas de uma transmissão silenciosa, emocional, muitas vezes feita de silêncios, olhares, ausências e atitudes repetidas sem consciência.

Por exemplo, uma avó que sofreu uma perda profunda e nunca pode vivê-la plenamente pode “passar” esse luto não vivido à neta, que sente uma tristeza sem nome, um vazio sem explicação. Ou um pai que aprendeu a sobreviver calando a própria dor pode transmitir ao filho a dificuldade de nomear os próprios sentimentos.

Essas camadas de memória psíquica, quando não reconhecidas, tornam-se peso; e muitas vezes, a psicanálise é o espaço onde, pela primeira vez, essas histórias ganham voz.

O papel da escuta: descer ao porão com uma vela na mão

Fazer análise é, em certa medida, aceitar o convite para descer ao porão.

Não com pressa de iluminar tudo de uma vez, mas com delicadeza, com tempo, com uma vela na mão.

É preciso escutar o que ali foi guardado, respeitar o que ficou trancado por medo ou proteção. É nesse processo que vamos entendendo que muito do que sentimos hoje pode não ter começado em nós; mas continua conosco.

Nomear essas heranças, reconhecer suas origens, diferenciar o que é nosso do que é do outro, nos permite criar um novo caminho: o de reescrever a própria história com mais autonomia, consciência e compaixão.

Nem tudo se resolve, mas muito se transforma

Ao descer ao porão da família, não esperamos encontrar soluções fáceis.

Algumas caixas talvez permaneçam fechadas. Outras, ao serem abertas, revelarão objetos que já não nos dizem respeito.

Mas o gesto de descer, de olhar, de escutar; já é, por si só, um movimento de transformação.

Reconhecer as heranças invisíveis é uma forma de interromper ciclos.

É um ato de cuidado com a própria vida; e também com as gerações que virão depois.

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O espelho do outro: quando o olhar nos ensina quem somos https://carlalouro.com/o-espelho-do-outro-quando-o-olhar-nos-ensina-quem-somos-2/ https://carlalouro.com/o-espelho-do-outro-quando-o-olhar-nos-ensina-quem-somos-2/#respond Fri, 18 Sep 2015 16:35:00 +0000 https://carlalouro.com/?p=276 O post O espelho do outro: quando o olhar nos ensina quem somos apareceu primeiro em Carla Louro .

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Há espelhos que não refletem: moldam. Este texto percorre os caminhos silenciosos o olhar que recebemos e da imagem que criamos para sermos amados. Um diálogo entre psicanálise e alma, para quem deseja se ver com os próprios olhos pela primeira vez.

O espelho do outro: quando o olhar nos ensina quem somos

“Sou olhado, logo existo.” Essa poderia ser a paráfrase afetiva de uma verdade primeira da experiência humana. Antes de nos reconhecermos no espelho, somos refletidos nos olhos de alguém. É pelo olhar do outro que o eu começa a se formar. É nesse campo de espelhos (às vezes côncavos, às vezes rachados) que vamos tentando nos construir como sujeitos.

O nascimento do eu não acontece sozinho

O bebê humano nasce incompleto, prematuro. Ao contrário de outras espécies, não tem instinto que o guie de forma plena, nem maturidade neurológica para enfrentar o mundo. É, portanto, um ser radicalmente dependente; do corpo que o segura, da voz que o nomeia, do olhar que o reconhece.

A psicanálise de Jacques Lacan nos oferece uma chave potente para compreender esse processo: o Estádio do Espelho. Segundo Lacan, por volta dos seis a dezoito meses de vida, a criança começa a se reconhecer na imagem refletida; não apenas no espelho literal, mas no espelho simbólico do outro. É quando ela vê ali uma totalidade do corpo que ainda não sente em si. Mas há um detalhe crucial:

Esse reconhecimento só acontece porque há alguém ali, validando aquela imagem. O bebê se vê sendo visto. E é nesse ver sendo visto que ele começa a construir um “eu”.

O olhar do outro como molde e prisão

O outro nos funda. Mas também pode nos aprisionar.

Somos moldados pelas expectativas que recaem sobre nós, muitas vezes antes mesmo de termos palavras. Quando a mãe (ou outro cuidador) nos olha com amor, disponibilidade e presença, esse olhar é como um sol ameno, que aquece e permite o florescer. Mas quando o olhar é ausente, invasivo ou indiferente, deixamos de ser espelho e viramos superfície rachada.

Donald Winnicott, outro pensador essencial da psicanálise, dizia que o bebê não vê a mãe; vê-se no olhar dela. E é justamente no modo como ela (ou quem a representa) o olha, que ele entende se é digno de amor, de cuidado, de existir. Ou se, ao contrário, precisa se adaptar, esconder, performar para ser aceito.

É assim que muitos de nós crescemos: não sendo quem somos, mas sendo o que o outro queria ver.

Quando o espelho distorce

A adolescência, a maturidade, as rupturas da vida, tudo isso pode ser um convite (ou uma crise) para revisitarmos esse espelho. E nos perguntarmos:

— Quem sou eu quando ninguém me observa?

— O que em mim é verdade, e o que é reflexo do desejo do outro?

— Quantas versões de mim nasceram para atender olhares que não eram meus?

Essa investigação não é simples. É dolorosa, às vezes. Porque desmontar o que foi construído com tanto esforço (mesmo que tenha sido uma defesa, mesmo que tenha sido uma máscara) é como quebrar um espelho antigo e tentar refazer o próprio rosto com os cacos.

Mas também é libertador. Porque, uma vez que percebemos a potência (e a armadilha) do olhar do outro, podemos começar a desenvolver o nosso próprio olhar interno. Um olhar que acolhe, que reconhece, que nomeia; sem exigir que sejamos o tempo todo agradáveis, adaptados ou ideais.

A clínica como novo espelho

É por isso que a psicanálise não oferece respostas prontas. Ela oferece um espaço de escuta, onde o sujeito pode se ouvir, se reconhecer e, aos poucos, construir uma narrativa própria; talvez pela primeira vez. O analista, diferente dos outros espelhos da vida, não exige, não julga, não espera que o paciente seja nada além do que é naquele instante.

Esse tipo de olhar (silencioso, ético, sustentado) permite algo raro: ser olhado sem ser invadido.

E talvez seja disso que mais precisamos ao longo da vida: de um espaço onde possamos nos reconstruir longe dos antigos reflexos. Para, enfim, sermos autores da própria imagem. Não mais moldados, mas moldando. Não mais espelhos partidos, mas rostos inteiros, ainda que imperfeitos; e por isso mesmo, profundamente humanos.

Referências

  • Lacan, J. (1998). Os Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
  • Winnicott, D. W. (1983). O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago.
  • Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago.

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Quando iniciei a graduação em Psicologia, deparei-me com a pergunta clássica dos primeiros semestres: o que motivou sua escolha? A resposta que sempre me acompanhou era simples, mas carregada de sentidos: o desejo de compreender melhor o ser humano; suas reações diante da vida, seus modos de se comportar, de se posicionar frente às experiências, às dores, às inevitáveis adversidades que nos atravessam. E, claro, uma dose íntima de urgência por respostas às minhas próprias inquietações emocionais; o que hoje reconheço como legítimo ponto de partida para quem escolhe este ofício, desde que não permaneça como o único motor ao longo da jornada.

Foi então que me encontrei com múltiplas formas de pensar o funcionamento da mente e do comportamento. Entre elas, a Psicanálise me atravessou profundamente.

O amor pela Psicologia foi imediato e intenso, confirmando o que eu já intuía: não há uma única verdade, mas muitas; modos diversos de perceber o mundo, o outro e a si mesmo. Por isso, falar em “certo ou errado” exige cuidado: trata-se de algo atravessado por múltiplos fatores, muitas vezes invisíveis até para quem defende determinada ideia com tanta veemência.

A escolha pela Psicologia me ofereceu muitos presentes; e um deles considero essencial: o reconhecimento do outro em sua singularidade. A alteridade já não me causa estranheza; pelo contrário, compreendo hoje que ela é condição para que exista, de fato, um sujeito. Descobri, ainda, que há uma linha sutil entre o normal e o patológico, entre saúde mental e sofrimento psíquico; e que, salvo em situações extremas (como quando alguém representa risco para si ou para outros), essas definições estão atreladas a padrões sociais que mudam com o tempo e o contexto.

A Psicologia também me ensinou sobre nossa fragilidade comum. Somos todos dependentes, imperfeitos, semelhantes em tantos aspectos, mas essencialmente singulares em nossa história e modo de ser.

Sou profundamente grata pela escolha que fiz. Não porque tenha encontrado todas as respostas; na verdade, as perguntas aumentaram. Mas porque encontrei, através da Psicologia (e especialmente da Psicanálise), a possibilidade de ressignificar minha existência e de lançar um novo olhar, mais sensível e atento, sobre o ser humano.

E as perguntas… continuam me intrigando. E ainda bem.

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