Arquivo de PassagemDoTempo - Carla Louro https://carlalouro.com/tag/passagemdotempo/ My WordPress Blog Thu, 21 Aug 2025 17:30:47 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://carlalouro.com/wp-content/uploads/2025/09/Andre-Cruz-Estudio-Fotografico-15-98141-6016-@acruzestudiofotografico-7-150x150.jpg Arquivo de PassagemDoTempo - Carla Louro https://carlalouro.com/tag/passagemdotempo/ 32 32 Transformações do corpo e da mente na maturidade: perdas ou redescobertas? https://carlalouro.com/envelhecer-um-caminho-de-autodescoberta-e-crescimento/ https://carlalouro.com/envelhecer-um-caminho-de-autodescoberta-e-crescimento/#respond Mon, 23 Jun 2025 20:47:00 +0000 https://carlalouro.com/envelhecer-um-caminho-de-autodescoberta-e-crescimento/ Há um momento da vida em que o espelho já não reflete apenas a imagem: ele devolve perguntas. O corpo, antes automático, agora hesita. A mente, antes veloz, agora pondera. E, entre rugas e silêncios, surgem inquietações: O que ainda sou? O que deixei de ser? O que posso me tornar? A maturidade chega sem […]

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Há um momento da vida em que o espelho já não reflete apenas a imagem: ele devolve perguntas. O corpo, antes automático, agora hesita. A mente, antes veloz, agora pondera. E, entre rugas e silêncios, surgem inquietações: O que ainda sou? O que deixei de ser? O que posso me tornar?

A maturidade chega sem pedir licença. Não é súbita, mas se instala aos poucos, como o entardecer que escurece o dia sem que percebamos o instante exato da mudança. E com ela, chegam transformações inevitáveis; algumas visíveis, outras silenciosas, quase imperceptíveis aos olhos do mundo, mas gritantes no íntimo de quem as vive.

A experiência do envelhecer não se resume à contagem dos anos. É atravessada por lutos sutis: a vitalidade que já não é a mesma, a pele que afrouxa, a memória que escapa. Mas talvez o maior luto seja o da identidade que envelhece com o corpo; aquela que já não se reconhece nos papéis antigos: a filha que virou mãe, a mãe que agora se vê sozinha, a profissional que já não se encaixa nas exigências de um mundo acelerado.

Na escuta clínica, vejo com frequência esse embate entre o que se perde e o que pode ainda ser encontrado. A mulher que se pergunta se ainda é desejável. O homem que sente o vazio após uma vida de trabalho. A mente que tenta se reorganizar diante de um corpo que muda. Cada transformação carrega uma dor, mas também a possibilidade de um novo nascimento psíquico.

Freud nos ensinou que o eu é construído em camadas, e que a maturidade é uma fase propícia para o reexame dessas camadas. Se na juventude somos convocados a nos lançar ao mundo, na maturidade somos convidados a mergulhar em nós. Não é mais o tempo da expansão, mas da escuta. Não é mais o tempo da performance, mas da verdade.

O corpo que perde vigor também pode ganhar liberdade. Liberdade de não agradar. De dizer não. De escolher o silêncio. De romper com o que sempre foi e já não faz mais sentido.

A mente, por sua vez, pode se tornar mais sábia. Menos reativa, mais contemplativa. Capaz de elaborar o que antes era apenas repetido. Em vez de perda, talvez estejamos diante de uma travessia; onde aquilo que parecia ruir era, na verdade, o que precisava se desfazer para que outra coisa pudesse emergir.

O desafio é não fixar o olhar apenas naquilo que se vai, mas também naquilo que pode vir. Porque há redescobertas possíveis quando se tem coragem de olhar para dentro. Talvez o amor, agora mais sereno. A amizade, mais íntima. O tempo, menos escasso. O desejo, menos ansioso.

A maturidade nos tira algumas ilusões, mas pode nos devolver a inteireza. E a grande pergunta talvez não seja “o que estou perdendo?”, mas “o que posso reencontrar em mim?”

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A solidão na velhice: entre o silêncio e o desejo de ser lembrado https://carlalouro.com/a-solidao-na-velhice-entre-o-silencio-e-o-desejo-de-ser-lembrado/ https://carlalouro.com/a-solidao-na-velhice-entre-o-silencio-e-o-desejo-de-ser-lembrado/#respond Fri, 06 Sep 2024 19:53:00 +0000 https://carlalouro.com/?p=233 Há silêncios que não se fazem de palavras, mas de ausência. Silêncios que ocupam a sala, a cadeira vazia à mesa, o telefone que não toca. Na velhice, esses silêncios ganham corpo. Tornam-se companhia. E não raro, tornam-se ferida. A velhice, embora frequentemente romantizada como tempo de sabedoria e contemplação, é muitas vezes marcada por […]

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Há silêncios que não se fazem de palavras, mas de ausência. Silêncios que ocupam a sala, a cadeira vazia à mesa, o telefone que não toca. Na velhice, esses silêncios ganham corpo. Tornam-se companhia. E não raro, tornam-se ferida.

A velhice, embora frequentemente romantizada como tempo de sabedoria e contemplação, é muitas vezes marcada por um tipo de solidão que vai além da falta de pessoas: é a ausência de ser lembrado. De ter a própria existência ecoando em outro alguém.

Quem sou, se já não há quem me chame? De que vale a história que carrego, se ninguém mais a escuta?

Envelhecer é, em parte, se despedir. Dos papéis que nos sustentaram por décadas; o de mãe, de pai, de trabalhador, de parceiro. Do corpo que já não responde com a mesma agilidade. Dos vínculos que se perderam no tempo. E, mais profundamente, de uma certa centralidade no mundo do outro.

A escuta clínica revela esse abismo: o idoso que foi presença marcante na vida dos filhos, agora é visto como peso ou tarefa. A mulher que foi pilar da família, agora sente que sua voz se dissolve no ruído da rotina alheia. O homem que teve uma vida pública ativa, agora passa os dias olhando pela janela.

Freud, em Luto e Melancolia, nos ajuda a entender esse luto peculiar da velhice: não por alguém que morreu, mas por um lugar que já não é mais ocupado. A libido, que antes se dirigia ao mundo, retorna agora ao eu. E quando esse eu está fragilizado, o risco de mergulho na melancolia é alto.

Mas é também nesse tempo que algo pode se rearranjar. Winnicott nos lembra que a solidão, quando sustentada, pode ser criativa. Que existe uma diferença entre estar só e sentir-se abandonado. Na velhice, o desafio é esse: transformar o silêncio em escuta interior. Fazer da memória um espaço fértil, não apenas nostálgico. E reencontrar, quem sabe, o desejo (ainda que discreto) de continuar sendo.

O desejo de ser lembrado não é apenas vaidade. É pulsão de vida. É o grito psíquico de quem quer continuar existindo, não apenas biologicamente, mas simbolicamente. Porque o humano só é quando é reconhecido. Só vive, de fato, quando se sente visto, nomeado, pertencente a alguém ou a alguma história.

Por isso, envelhecer não deveria ser sinônimo de desaparecer. A escuta, o cuidado e a presença de outro são mais do que acolhimento: são formas de sustentar a existência de quem, aos poucos, vai sendo apagado pelo tempo social.

E se é verdade que não podemos deter o tempo, talvez possamos fazer diferente diante dele: sermos presença para quem já foi presença para tantos. Abrirmos espaço para as histórias que ainda vivem, mesmo que num corpo mais lento. E, acima de tudo, sustentarmos o laço; esse fio invisível que, mesmo frágil, ainda é capaz de devolver sentido.

Porque há solidões que matam, mas há presenças que salvam. E talvez a maior dignidade da velhice seja essa: não ser esquecido enquanto ainda se está vivo.

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A reconfiguração da imagem corporal e a ferida narcísica https://carlalouro.com/a-reconfiguracao-da-imagem-corporal-e-a-ferida-narcisica/ https://carlalouro.com/a-reconfiguracao-da-imagem-corporal-e-a-ferida-narcisica/#respond Sun, 16 Jun 2024 01:36:00 +0000 https://carlalouro.com/?p=368 Ao chegar à meia-idade, o espelho parece ganhar uma voz própria. Ele já não devolve apenas a imagem conhecida, mas também insinua o passar do tempo, revelando marcas que antes passavam despercebidas. É nesse encontro íntimo entre o corpo real e o corpo idealizado que muitas mulheres sentem o peso de uma ferida silenciosa, a […]

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Ao chegar à meia-idade, o espelho parece ganhar uma voz própria. Ele já não devolve apenas a imagem conhecida, mas também insinua o passar do tempo, revelando marcas que antes passavam despercebidas. É nesse encontro íntimo entre o corpo real e o corpo idealizado que muitas mulheres sentem o peso de uma ferida silenciosa, a ferida narcísica. Na linguagem da psicanálise, ela surge quando a imagem que temos de nós mesmas se rompe, exigindo uma nova costura entre o que fomos, o que somos e o que ainda podemos ser.

A meia-idade é, para muitas mulheres, um território de espelhos inquietos. Não apenas o que está na parede do quarto, mas também os que se escondem nos olhares alheios, nas fotografias antigas e nas comparações inevitáveis com quem já fomos. É um tempo em que o corpo, antes aliado discreto, passa a chamar atenção para si, reclamando reconhecimento e cuidado. A psicanálise chama de ferida narcísica esse choque entre a imagem idealizada e a realidade presente. Freud descreveu o narcisismo como o amor que dirigimos a nós mesmas e Lacan apontou que a forma como nos vemos, a imagem especular, é um dos pilares de nossa identidade. Quando essa imagem se altera, o eu inteiro parece estremecer.

A ferida que o espelho revela

O envelhecimento físico não é apenas uma questão biológica, mas também um acontecimento simbólico. As rugas, os fios brancos, a pele mais frouxa, tudo isso não fala apenas de tempo, mas de histórias. Ainda assim, vivemos numa cultura que exalta o brilho da juventude como se fosse o único tempo válido. Por isso, a mulher madura muitas vezes se percebe em um duelo silencioso com a própria aparência, sentindo como se a beleza fosse um passaporte que lhe foi retirado.

Essa perda é um luto sem velório. Não choramos abertamente por ele, mas carregamos seu peso. É o luto pela imagem de antes, pelo corpo fértil, pelo olhar que recebíamos e que talvez já não venha com a mesma frequência.

O olhar do outro e o olhar de si

Desde cedo aprendemos a nos ver pelos olhos alheios. O elogio ou a crítica moldam, pouco a pouco, a forma como nos enxergamos. Na meia-idade, quando o olhar social tende a deslizar para outras figuras mais jovens e mais atuais, muitas mulheres experimentam um sentimento de invisibilidade.

É nesse momento que surge uma encruzilhada interna. Continuar buscando incessantemente o olhar do outro para confirmar nossa existência ou começar a desenvolver um olhar próprio, íntimo, que reconheça beleza para além do que é fotografável.

Sexualidade: invisibilidade ou redescoberta?

Para algumas mulheres, o avanço da idade marca um retraimento sexual, alimentado pela crença de que o desejo está ligado apenas à juventude. Para outras, paradoxalmente, é o momento de maior liberdade erótica, pois já não se busca corresponder a um padrão externo. Na psicanálise, poderíamos dizer que é a fase em que o desejo deixa de ser uma vitrine e passa a ser um quarto fechado. Mais secreto, mas também mais verdadeiro.

O espelho como portal

O corpo na meia-idade não é um inimigo a ser vencido, mas um diário vivo onde cada marca carrega uma narrativa. A ferida narcísica, quando encarada, pode se tornar um portal para um novo amor-próprio. Esse amor é mais profundo e menos dependente de aplausos externos. O espelho, afinal, não precisa ser um juiz. Ele pode se tornar uma janela para a inteireza, se aprendermos a nos olhar com o mesmo cuidado com que se observa uma obra de arte antiga, percebendo não só a beleza, mas o valor do tempo inscrito nela.


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