Psicoterapeuta

Em algum momento da vida, todos nós nos deparamos com dificuldades nos relacionamentos; seja em casa, no trabalho ou nos laços mais íntimos. É comum atribuir esses impasses ao comportamento do outro. Mas e se parte desses conflitos tiverem raízes dentro de nós?

Neste texto, convido você a refletir sobre a relação entre o que vivemos externamente e o que carregamos internamente. A partir da lente da psicanálise, exploramos como nossas sombras, defesas e silêncios influenciam nossa capacidade de conviver; não apenas com os outros, mas principalmente conosco.

Conviver bem com os outros implica, antes de tudo, em saber conviver consigo mesmo. Grande parte dos conflitos atribuídos a causas externas são, na verdade, expressões de conflitos internos.

Muitas pessoas resistem em admitir a existência de um conflito interno, pois tendem a enxergá-lo como algo negativo. Assim, torna-se mais fácil responsabilizar o outro pelo mal-estar em que se encontram.

Quando a culpa é sempre do outro, o sujeito deixa de olhar para si. Não aprende nada a seu respeito, vive uma vida ignorante acerca de si mesmo; sem movimento interno, sem transformação. Essa postura pode ser compreendida como uma defesa contra o contato com os próprios conflitos, com aquilo que há de mais difícil dentro de si: o que Jung chamou de “sombra”.

“Infelizmente, não há dúvida de que o homem não é, em geral, tão bom quanto imagina ou gostaria de ser. Todo mundo tem uma sombra, e quanto mais escondida ela está da vida consciente do indivíduo, mais escura e densa ela se tornará. De qualquer forma, é um dos nossos piores obstáculos, já que frustra as nossas ações bem intencionadas.”

Carl Jung

A escuta psicanalítica: somos divididos

A psicanálise nos ensina que o sujeito não é uno, mas dividido. Somos habitados por desejos inconscientes que nem sempre coincidem com a imagem que fazemos de nós mesmos.

Há em cada um de nós um estranho familiar (aquilo que Freud chamou de Unheimlich, ou “inquietante”) que insistimos em calar, mas que se faz ouvir nos lapsos, nos sintomas, nos sonhos e nas repetições.

É justamente no encontro com o outro que essas fissuras psíquicas tendem a se evidenciar. O outro nos provoca, nos desconcerta, nos afeta; e, por vezes, faz emergir aspectos de nós que preferíamos manter adormecidos.

Assim, aquilo que nos incomoda no outro frequentemente fala mais sobre o que em nós está em conflito do que sobre o comportamento alheio.

A coragem de sustentar-se

Conviver consigo, portanto, não é uma tarefa pacífica. Exige coragem para suportar o que se descobre, disposição para revisitar a própria história e escuta para os silêncios que nos habitam.

Conviver é, antes de mais nada, um movimento de responsabilidade subjetiva: reconhecer que há algo em nós que participa das dores que vivemos; sem culpa, mas com implicação.

E talvez, ao aprender a suportar a própria companhia (com suas luzes e sombras) o sujeito se torne mais capaz de sustentar a alteridade, não como ameaça, mas como oportunidade de encontro.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *