Psicoterapeuta

Há espelhos que não refletem: moldam. Este texto percorre os caminhos silenciosos o olhar que recebemos e da imagem que criamos para sermos amados. Um diálogo entre psicanálise e alma, para quem deseja se ver com os próprios olhos pela primeira vez.

O espelho do outro: quando o olhar nos ensina quem somos

“Sou olhado, logo existo.” Essa poderia ser a paráfrase afetiva de uma verdade primeira da experiência humana. Antes de nos reconhecermos no espelho, somos refletidos nos olhos de alguém. É pelo olhar do outro que o eu começa a se formar. É nesse campo de espelhos (às vezes côncavos, às vezes rachados) que vamos tentando nos construir como sujeitos.

O nascimento do eu não acontece sozinho

O bebê humano nasce incompleto, prematuro. Ao contrário de outras espécies, não tem instinto que o guie de forma plena, nem maturidade neurológica para enfrentar o mundo. É, portanto, um ser radicalmente dependente; do corpo que o segura, da voz que o nomeia, do olhar que o reconhece.

A psicanálise de Jacques Lacan nos oferece uma chave potente para compreender esse processo: o Estádio do Espelho. Segundo Lacan, por volta dos seis a dezoito meses de vida, a criança começa a se reconhecer na imagem refletida; não apenas no espelho literal, mas no espelho simbólico do outro. É quando ela vê ali uma totalidade do corpo que ainda não sente em si. Mas há um detalhe crucial:

Esse reconhecimento só acontece porque há alguém ali, validando aquela imagem. O bebê se vê sendo visto. E é nesse ver sendo visto que ele começa a construir um “eu”.

O olhar do outro como molde e prisão

O outro nos funda. Mas também pode nos aprisionar.

Somos moldados pelas expectativas que recaem sobre nós, muitas vezes antes mesmo de termos palavras. Quando a mãe (ou outro cuidador) nos olha com amor, disponibilidade e presença, esse olhar é como um sol ameno, que aquece e permite o florescer. Mas quando o olhar é ausente, invasivo ou indiferente, deixamos de ser espelho e viramos superfície rachada.

Donald Winnicott, outro pensador essencial da psicanálise, dizia que o bebê não vê a mãe; vê-se no olhar dela. E é justamente no modo como ela (ou quem a representa) o olha, que ele entende se é digno de amor, de cuidado, de existir. Ou se, ao contrário, precisa se adaptar, esconder, performar para ser aceito.

É assim que muitos de nós crescemos: não sendo quem somos, mas sendo o que o outro queria ver.

Quando o espelho distorce

A adolescência, a maturidade, as rupturas da vida, tudo isso pode ser um convite (ou uma crise) para revisitarmos esse espelho. E nos perguntarmos:

— Quem sou eu quando ninguém me observa?

— O que em mim é verdade, e o que é reflexo do desejo do outro?

— Quantas versões de mim nasceram para atender olhares que não eram meus?

Essa investigação não é simples. É dolorosa, às vezes. Porque desmontar o que foi construído com tanto esforço (mesmo que tenha sido uma defesa, mesmo que tenha sido uma máscara) é como quebrar um espelho antigo e tentar refazer o próprio rosto com os cacos.

Mas também é libertador. Porque, uma vez que percebemos a potência (e a armadilha) do olhar do outro, podemos começar a desenvolver o nosso próprio olhar interno. Um olhar que acolhe, que reconhece, que nomeia; sem exigir que sejamos o tempo todo agradáveis, adaptados ou ideais.

A clínica como novo espelho

É por isso que a psicanálise não oferece respostas prontas. Ela oferece um espaço de escuta, onde o sujeito pode se ouvir, se reconhecer e, aos poucos, construir uma narrativa própria; talvez pela primeira vez. O analista, diferente dos outros espelhos da vida, não exige, não julga, não espera que o paciente seja nada além do que é naquele instante.

Esse tipo de olhar (silencioso, ético, sustentado) permite algo raro: ser olhado sem ser invadido.

E talvez seja disso que mais precisamos ao longo da vida: de um espaço onde possamos nos reconstruir longe dos antigos reflexos. Para, enfim, sermos autores da própria imagem. Não mais moldados, mas moldando. Não mais espelhos partidos, mas rostos inteiros, ainda que imperfeitos; e por isso mesmo, profundamente humanos.

Referências

  • Lacan, J. (1998). Os Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
  • Winnicott, D. W. (1983). O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago.
  • Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago.


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